segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Até que não haja mais fôlego que expresse

Cecília Meireles
Motivo

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada."

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Lápide

Num dia como esses em que tudo muda, quis que fosse verdade. Pegou os velhos trapos de lembrança e os lavou com fantasia. Correspondia aos requisitos. Mensurável. Até que não foi mais tão previsível. E permaneceu, ignorando um pessimismo latente. "Não tão fácil", e o pulo da janela do vigésimo fatídico andar foi um adeus necessário mascarado de possibilidade - ou vice-versa. Machadada na fratura exposta. Foi diferente desta vez. Sonho brilhante pareceu mais melancólico. Já se findaram as expectativas? Já não permanecem as variedades? Acomodou-se.