domingo, 27 de setembro de 2015

Que cabeça a minha!


Eu perdi algo. Sempre esqueço as coisas mais importantes nos lugares mais sem importância. Estava aqui. Eu só não sei onde deixaria se não fosse aqui. Eu devo ter deixado cair. Esse é o tipo de coisa que realmente me irrita: não conseguir lembrar onde me perdi, onde me deixei tão bem guardada que nem eu acharia, onde me deixei esfarelar e desmiuçar a tal ponto de não me reconhecer.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Significâncias II

Você não é o mesmo! Depois de tanto tempo longe, a gente começa a idealizar, então não me surpreendem as mudanças. O mundo te fez tão mal; a guerra te fez cair os cabelos e os juízos. Mas você é tão jovem! E agora, te querem tirar de mim de novo? Vira teu olho, Napoleão! Não fica aí parado, Cristóvão! Eu me recuso a debulhar em lágrimas as minhas horas de preparação! Eu me recuso a voltar a te idealizar apenas! Apenas porque eu sei que não serás o mesmo de agora. Nem o mesmo de antes. Nem eu.

Inspirado em The Black Brunswicker (Millais,1860)

Significâncias I

Eu escolhi um vestido estampado e ataviei o cabelo com flores. Você escreveu uma coroa de ramos que eu não poderia deixar de criticar. Eu me apressei, olhei pra tanta coisa. O relógio não pára pra ninguém, muito menos pra quem esqueceu de calçar as sandálias. Mas você me parou e olhou tão profundamente para a minha efervescência que eu não pude continuar. Aí, você me presenteou com o beijo na bochecha mais significativo. Eu só podia aproveitar pra amarrotar minha pressa.

Inspirado em O Beijo (Klimt, 1907-1908)

sexta-feira, 6 de março de 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Imaginação é a melhor casa

A filha olha pra cima. Os fios de telefone estragam a foto das nuvens, mas a compõem. E já nem lembra o que aconteceu naquele dia. Só restou a foto. E ainda bem que restou a foto, porque o que se há de admirar desse dia, senão a recordação? O presente? Ah, não estrague o momento! O presente é estranho, não resolvido, incerto e inesperado como dizer algo a um estranho. A foto é idealista. Pode imaginar que, nesse dia, o céu sorriu porque não havia nada que o entristecesse, como se as lembranças estivessem escritas e que tivesse que ler para que existissem.